quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Quando a rosa descobre que é uma máquina de guerra.

Existem três tipos de rosas. Mas não é pela cor que se distinguem.
Enquanto são ainda pequenos botões não se preocupam com mais nada a não ser aprontarem-se para desabrochar. Para saírem perfeitas. Não que sejam vaidosas, como muitos julgam; apenas gostam de agradar. Quando abrem pela primeira vez as pétalas ao sol, o deslumbramento é tal que ficam petrificadas, em contemplação, até que descubram o vento.
Muitas rosas permanecem neste estado puro até ao fim. Dedicam os seus dias a sentir o calor do sol nas pétalas, a escutar os murmúrios do vento e a sentir as suas carícias por entre as folhas que estendem de prazer. Embriagadas na fotossíntese. Completamente alheadas de si mesmas. Alegres e despreocupadas, sorrindo ao mundo. São as rosas inocentes.
Depois há as rosas que passam os dias com medo dos insectos e os ameaçam constantemente com os seus pequenos espinhos afiados, convencidas de que estes bastarão para as defender de tudo e de todos (como a rosa do Princípezinho...). Conversam com as irmãs, queixando-se do perigo das lagartas e do assédio das abelhas. São as rosas ingénuas e palermas.
Mas há ainda um terceiro tipo de rosa. A rosa que um dia, não se sabe muito bem como nem porquê, descobre toda a dimensão da sua beleza. E apercebe-se de que esta é a arma mais poderosa de todas. Infinitamente mais devastadora que uns simples espinhos. Dedica-se então a coleccionar corações. Colecção sangrenta a sua, direis. Mas ela não o faz por mal. Em si não há lugar para a maldade. Fá-lo apenas porque lhe dá prazer. E porque sabe que pode. Simplesmente cumpre o seu destino. Se um transeunte incauto passa por ela, lança-lhe o seu perfume arrebatador, que o entontece. Se ele pára para a admirar, inclina-se suavemente na sua direcção, usando a brisa como pretexto para o seu desiquilíbrio momentâneo. Se ele lhe toca, pica-o com doçura, inebriada pelo sangue quente que a inunda e tanto a excita. Se vê que ele repara nos pequenos cortes que lhe marcam o tronco, ri-se para dentro porque sabe que ele pensará que se tratam das sequelas deixadas por alguma faca ou tesoura, ao colher uma das sua irmãs. E quando finalmente ele se afasta - por saber que a levará no pensamento, que será a causa da sua perturbação, que aquele coração lhe pertence para sempre, para uma eternidade maior que algumas vidas - utiliza rejubilante o próprio espinho para rasgar a sua carne de flor, num ritual de automutilação que lhe permite actualizar o inventário da sua colecção. E espera que passe mais alguém. Estas são as rosas perigosas. E as que mais vale a pena conhecer.
Se amanhã passardes por um jardim, acautelai-vos. Agora conheceis os riscos. Se quereis conservar o coração livre, afastai-vos das roseiras. Se não vos importais e quereis sentir na pele a doce mordedura de uma rosa, ide e aspirai o seu perfume. Se, como o meu, o vosso coração já pertence a alguma rosa, então não preciso dizer mais nada. Sabeis do que falo.

1 comentário:

Ishkur disse...

Wow...isto está algo de maravilhoso! Sei que o vou ler vezes sem conta de cada vez que no futuro te visitar. Tão...sedutor... :)

Beijo*