segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Poema de não conseguir parar

não consigo parar
é como se a qualquer momento
as palavras fossem rebentar
boca fora
e eu não as pudesse travar
vejo-me tentar
cobrir a boca com as duas mãos
olhos esbugalhados
pânico de o dizer
pânico de me ouvir
pânico de que me ouças
ou de que não entendas
de que me saiam apenas gemidos abafados
entrecortados
ou gritos ininteligíveis
esganiçados
se a luz do dia mostrar o que eu quero esconder
(não, não
por favor, não)
está-me nos olhos nebulosos
prestes a cair
a todo o momento
está-me nas mãos nervosas
prestes a saltar
a todo o momento
e eu não consigo
não consigo parar
fico num coma simulado
para não mostrar nada
para não denunciar nada
porque qualquer movimento é perigoso
qualquer palavra é potencialmente desastrosa
preciso fazer-me de morta
para não ser comida viva
pelas palavras
elas tentam engolir-me
submergem-me
afogam-me
e não são as palavras
é o que está por detrás delas
em silêncio
no escuro
mas quer sair cá para fora
o silêncio quer sair
o escuro quer sair
cabeça fora
palavras fora
boca fora
olhos fora
mãos fora
corpo fora
tudo fora
morro aqui

2 comentários:

VELOSO disse...

Parabens pelo blog e escritos!

Pollykc disse...

Gostei do blog e do pouco que li
;)