quinta-feira, 16 de outubro de 2008

História de-gelo.

Eles desejavam-se mutuamente, mas ambos ignoravam o facto de o seu desejo ser correspondido. Então, ignoraram-se reciprocamente na esperança de se tornar objecto de desejo do outro, em profunda ignorância da simetria táctica. Cada vez mais distantes, deixaram apagar o desejo, sedados na frustração do fracasso sedutivo. Um dia caminhavam na baixa de Lisboa, em direcções contrárias, e ao cruzarem-se reconheceram a presença um do outro, trocando um frio acenar de cabeça. Quando digo frio, quero dizer gélido, sibérico, congelante. Tanto que o chão que pisavam começou verdadeiramente a gelar, a uma velocidade estonteante, dezenas de metros em redor. Aterrorizados, olharam em volta. Entre eles, abria-se uma fissura no gelo, com um ruído ensurdecedor. Os estalidos secos do gelo troavam-lhes nos ouvidos. Olharam um para o outro, ainda cheios de terror, e apercebendo-se da sua culpa começaram a rir. As gargalhadas ganhavam um tom cristalino no ar gelado e ecoavam até longe. À medida que eles iam rindo, o gelo começou a derreter. Eles agarravam-se às barrigas, rindo sem parar, e o gelo derretia. As pedras da calçada, a terra e o alcatrão transformavam-se em água. E Lisboa era Veneza, com canais em lugar de ruas. Sempre a rir, eles nadaram até às portas dos Armazéns do Chiado, onde a água acabava, e treparam a margem de alcatrão seco. Subiram a rua e sentaram-se nas escadas da Basílica dos Mártires, recuperando o fôlego. Ali se espraiaram, deixando as roupas secar ao sol, como náufragos.

5 comentários:

mariana disse...

Naufragar em plena baixa lisboeta, linda, linda! Quem não quereria uma aventura assim?

QT disse...

Adorei a transformação de Lisboa..=)

"Então, ignoraram-se reciprocamente na esperança de se tornar objecto de desejo do outro, em profunda ignorância da simetria táctica".. muito boa esta parte

bjs

infininta disse...

Lindíssimo!!

ARN disse...

és maravilhosa, tal como a tua história.

Lidia disse...

É raro fazer um comentário num blog. Fiz alguns há um tempo atrás, como anónimo, para não ferir corações. Adorei o teu de-gelo. Tudo porque ... eu sou mesmo assim ... e o ambiente que criaste foi tão real que até me arrepiei!