Está oficialmente inaugurado o meu vigésimo primeiro Verão!
Que comecem as festividades!
quinta-feira, 22 de junho de 2006
segunda-feira, 19 de junho de 2006
Sou uma cicatriz ambulante.
Será que realmente quando chegar ao fim da minha vida vão ser poucas as pessoas que verdadeiramente fizeram diferença? É o que se costuma dizer. Não consigo deixar de duvidar.
Vejo esta fase da minha vida como uma espécie de fim do começo. E quando olho para trás, as lembranças são mais que muitas e há tantos marcos históricos que levaria páginas e páginas a descrevê-los. E a minha vida nem tem sido assim tão interessante. Mas se me puser a pensar nas pessoas que tiveram um significado especial, nas que mudaram qualquer coisa em mim, que me acrescentaram, que fazem parte do meu eu actual, de uma maneira ou de outra, são muitas. Muitas, a sério. Os dedos das mãos não chegam para as contar, nem de perto, nem de longe. A verdade é que sendo tão nova tenho uma lista longa de pessoas, de histórias, de cicatrizes. No fundo, são estas que me formam, que me dão forma, que me transformaram. Uns eram amigos, outros nem por isso, outros foram paixões, outros ainda foram exemplos. Dos amigos e das paixões, há muitos que sobreviveram no meu coração, outros não sei bem em que canto de mim os guardo, talvez apenas no das recordações.
A questão reside provavelmente na idade. Enquanto somos jovens, damos muita importância a tudo. Talvez com o tempo passe. Também dizem que o tempo cura tudo. Mas o tempo não cura a saudade. O tempo agrava-a. E eu já tenho muitas saudades. Se fosse escrever um livro sobre cada uma das saudades que sinto, tinha material para uma colecção inteira, para uma vida inteira. Material constantemente renovado. Porque há sempre saudades novas que se vêm acrescentar às antigas, e as antigas nunca morrem.
A saudade é o que vem preencher o vazio deixado por alguma coisa ou por alguém. E é este constante sentimento de perda que me oprime. É a saudade que me aperta o coração. É por cima da saudade que me custa a respirar. É na saudade que perco o olhar quando ele está distante. Tenho tantas saudades... Tenho saudades de um amor que estrangulei à nascença. Tenho saudades de outro amor, que não me deixava comer, nem dormir, nem nada, porque só tinha tempo para amar enquanto amei. E também tenho saudades do primeiro, tão tímido e tão criança que todo ele era silêncio. Tenho saudades de uma amiga que fiz quando tinha doze anos e hoje não sei que será feito dela. - "Bye, angel." - Nunca soube dizer adeus. Há coisas tão fortes que nunca morrem. Há histórias que o tempo não apaga. No mundo da saudade, o tempo não existe. Não importa se foi esta tarde ou há dez anos. O que resta é a saudade.
E se, como dizem, antes de morrer me passar diante dos olhos o filme da minha vida, e nele estiverem incluídas todas as pessoas importantes para mim, vai ser uma morte lenta, mas nada dolorosa. Ou então, se para minha surpresa, o filme for mesmo rápido, vou perceber que vivi enganada. E só aí é que vou dar o braço a torcer. Depois de morta.
*
Vejo esta fase da minha vida como uma espécie de fim do começo. E quando olho para trás, as lembranças são mais que muitas e há tantos marcos históricos que levaria páginas e páginas a descrevê-los. E a minha vida nem tem sido assim tão interessante. Mas se me puser a pensar nas pessoas que tiveram um significado especial, nas que mudaram qualquer coisa em mim, que me acrescentaram, que fazem parte do meu eu actual, de uma maneira ou de outra, são muitas. Muitas, a sério. Os dedos das mãos não chegam para as contar, nem de perto, nem de longe. A verdade é que sendo tão nova tenho uma lista longa de pessoas, de histórias, de cicatrizes. No fundo, são estas que me formam, que me dão forma, que me transformaram. Uns eram amigos, outros nem por isso, outros foram paixões, outros ainda foram exemplos. Dos amigos e das paixões, há muitos que sobreviveram no meu coração, outros não sei bem em que canto de mim os guardo, talvez apenas no das recordações.
A questão reside provavelmente na idade. Enquanto somos jovens, damos muita importância a tudo. Talvez com o tempo passe. Também dizem que o tempo cura tudo. Mas o tempo não cura a saudade. O tempo agrava-a. E eu já tenho muitas saudades. Se fosse escrever um livro sobre cada uma das saudades que sinto, tinha material para uma colecção inteira, para uma vida inteira. Material constantemente renovado. Porque há sempre saudades novas que se vêm acrescentar às antigas, e as antigas nunca morrem.
A saudade é o que vem preencher o vazio deixado por alguma coisa ou por alguém. E é este constante sentimento de perda que me oprime. É a saudade que me aperta o coração. É por cima da saudade que me custa a respirar. É na saudade que perco o olhar quando ele está distante. Tenho tantas saudades... Tenho saudades de um amor que estrangulei à nascença. Tenho saudades de outro amor, que não me deixava comer, nem dormir, nem nada, porque só tinha tempo para amar enquanto amei. E também tenho saudades do primeiro, tão tímido e tão criança que todo ele era silêncio. Tenho saudades de uma amiga que fiz quando tinha doze anos e hoje não sei que será feito dela. - "Bye, angel." - Nunca soube dizer adeus. Há coisas tão fortes que nunca morrem. Há histórias que o tempo não apaga. No mundo da saudade, o tempo não existe. Não importa se foi esta tarde ou há dez anos. O que resta é a saudade.
E se, como dizem, antes de morrer me passar diante dos olhos o filme da minha vida, e nele estiverem incluídas todas as pessoas importantes para mim, vai ser uma morte lenta, mas nada dolorosa. Ou então, se para minha surpresa, o filme for mesmo rápido, vou perceber que vivi enganada. E só aí é que vou dar o braço a torcer. Depois de morta.
*
ISTO
Não queiras, não perguntes, não esperes.
Isto que passa como vida e tu
medes em dias, horas e minutos,
ou como tempo passa e vais medindo
em rugas e lembranças e em sombrias
e plácidas visões de coisa alguma,
às vezes sorridentes, mas sombrias;
sim: isto, a que dás nomes, que separas
do resto em que surgiu, de que surgiu;
isto, que já não queres, não interrogas,
de que já nada esperas, mas que queres,
por que perguntas sempre, e por que esperas;
isto, que não és tu, nem vai contigo,
nem fica quando vais; em que não pensas,
porque ao medir apenas medes e
nada mais fazes que medir - só isto,
apenas isto, isto unicamente:
não queiras, não perguntes, não esperes,
que o pouco ou muito é tudo o que te resta.
Jorge de Sena
Não queiras, não perguntes, não esperes.
Isto que passa como vida e tu
medes em dias, horas e minutos,
ou como tempo passa e vais medindo
em rugas e lembranças e em sombrias
e plácidas visões de coisa alguma,
às vezes sorridentes, mas sombrias;
sim: isto, a que dás nomes, que separas
do resto em que surgiu, de que surgiu;
isto, que já não queres, não interrogas,
de que já nada esperas, mas que queres,
por que perguntas sempre, e por que esperas;
isto, que não és tu, nem vai contigo,
nem fica quando vais; em que não pensas,
porque ao medir apenas medes e
nada mais fazes que medir - só isto,
apenas isto, isto unicamente:
não queiras, não perguntes, não esperes,
que o pouco ou muito é tudo o que te resta.
Jorge de Sena
segunda-feira, 5 de junho de 2006
"Just keep swimming..." ou "A Piscina."
Ela sentia-se como se vivesse eternamente presa numa piscina. Uma piscina de sonhos e divagações, desejos e ambições, medos e preconceitos, dúvidas e incertezas. Se às vezes conseguia nadar alegremente no meio daquilo tudo, outras tinha de fazer um esforço enorme para erguer a cabeça e respirar. Era por isso que às vezes se deixava apenas boiar. E a piscina não tinha escadas por onde subir. E era tão grande que ela se perdia e não conseguia encontrar a zona segura, onde tivesse pé. Para subir teria de fazer força com os braços e içar-se a ela mesma, suportando todo o peso do seu corpo. Mas o rebordo era tão alto... Às vezes queria subir, para se poder secar de toda aquela confusão. Às vezes tinha tanto frio dentro de água que ficava com as pontas dos dedos engelhadas, os lábios ganhavam um tom arroxeado e os ossos doiam-lhe. Quando mergulhava muito fundo, ardiam-lhe os olhos por causa do cloro e tinha de se apressar para vir à tona chorar. E enquanto o tempo passava, a água da piscina ia aumentando de volume com as lágrimas. Aos poucos, foi-se tornando uma piscina de água salgada. Até que ela chegou a um ponto em que se sentiu extenuada e pensou em parar de nadar; pensou em deixar que aquela água, que já lhe gelara o coração, lhe invadisse também os pulmões. Assim poderia finalmente descansar, no fundo negro da piscina, que ela nunca conseguira alcançar e tinha tanta curiosidade em conhecer. Mas foi nesse momento que sentiu uma mão a puxá-la pelo pé. Tornou-se leve como uma pluma e flutuou no ar. Enquanto era içada, escorreu toda a àgua que tinha no corpo e nos cabelos. E então, sentiu de novo os pés no chão quente e firme do mundo real. E a realidade foi mais encantadora que algum sonho podia algum dia ter sido.
quinta-feira, 1 de junho de 2006
Para rir ou para chorar, é p'ró menino e p'rá menina, cada cor seu paladar.
- Porque vais?
- Porque quero. Porque tenho vontade...
- Vontade de partir?
- Vontade de fugir.
- E de que foges tu?
- De nada. Fujo do nada.
- No fundo gostavas de ficar.
- Não quero ficar. Mas gostava de ter uma razão para não querer partir.
- É triste, a tua história.
- Qual história? Não há história nenhuma! Não tenho nada para contar.
- Não sei dizer se me fazes rir ou se me dás vontade de chorar...
- Porque quero. Porque tenho vontade...
- Vontade de partir?
- Vontade de fugir.
- E de que foges tu?
- De nada. Fujo do nada.
- No fundo gostavas de ficar.
- Não quero ficar. Mas gostava de ter uma razão para não querer partir.
- É triste, a tua história.
- Qual história? Não há história nenhuma! Não tenho nada para contar.
- Não sei dizer se me fazes rir ou se me dás vontade de chorar...
terça-feira, 16 de maio de 2006
Sombra de luz.
Eu estava do lado de cá e tu estavas do lado de lá. Era uma barreira de metal o que nos separava. Como se dividisse duas realidades paralelas. Eu podia ouvir a tua voz no meio do meu escuro e tu tinhas tanta luz à tua volta que duvidei que me pudesses ver. Cruzei o meu olhar com o teu e tu cruzaste o teu olhar com o vazio que estava na minha direcção, à minha volta e dentro de mim. Acenei-te com a mão, na esperança de que te apercebesses da minha presença, mas deixei de te ver. A luz apagou-se e foste embora. Agora tenho a tua voz a ressoar-me na cabeça, como música nos ouvidos. E o teu perfil é como um decalque no meu olhar. Vejo-te nos vidros das janelas, nas paredes vazias e nos rostos dos outros. Vejo-te nas folhas de papel, como se fosses uma sombra de luz de muitas cores. Hei-de procurar-te um dia destes. Para que possas deixar de ser esta forma indefinida que tenho tatuada na íris. Para que possas passar para o lado de cá dessa barreira metálica. Quero dar-te uma nova cor. Para isso, hei-de procurar-te um dia.
Estrela Cadente
A estrela caiu e partiu-se. Os cacos amarelos no chão são como pedaços de mim. Dizem que o tempo cura tudo, basta ter paciência. Basta ter esperança. Mas a estrela vai ficar partida para sempre, por mais cola que eu use. A ferida sara mas fica a cicatriz. A paciência esgota-se porque estamos cansados de ser desesperados. E os cacos pequeninos são impossíveis de apanhar. Mais tarde ou mais cedo vou ter de os varrer. E a estrela vai ficar incompleta para sempre. Vão faltar sempre pedacinhos, por mais minúsculos que sejam. Podemos curar, mas nada volta a ser o que era. Nunca mais vamos ser iguais ao que fomos antes de quebrar. A estrela partiu-se e eu fiquei sem saber se foi porque fechei a porta com força demais, com raiva demais, ou se foi porque tremeu de medo e desgosto ao respirar a tua cegueira do ódio que latejava no ar, e se desiquilibrou. Não importa de quem foi a culpa. Já não há nada a fazer.
A estrela caiu e partiu-se.
A estrela caiu e partiu-se.
quinta-feira, 11 de maio de 2006
Quem me dera.
Naquela angústia, naquele pânico, naquela ânsia de viver. Quem me dera ser como tu. Quem me dera saber morrer.
terça-feira, 9 de maio de 2006
Equinócio
Ela era uma forasteira. Chegou à cidade num dia de sol, vinda ninguém sabe de onde nem porquê. Trazia apenas uma mochila às costas, com os seus escassos pertences. Vestia umas calças de ganga e uma blusa de verão, bastante puídas, e calçava umas botas castanhas de montanhismo, cobertas de pó. Os seus cabelos longos e escuros, voavam com o vento, soltos e em desalinho. Era bonita. O seu ar de aventureira gerou desconfiança mas o mistério que trazia consigo despertou a curiosidade geral.
A única pessoa com quem foi vista a falar foi com a dona da casa do fim da rua. Era uma casa grande com um lindo jardim, rodeada de plátanos. A dona da casa era uma senhora elegante, de voz suave, com os seus sessenta ou setenta anos. Usava os cabelos brancos apanhados num bonito rolo no alto da cabeça e tinha uns olhos sábios, azuis e bondosos. Quem sabe se elas já se conheciam? Podiam até ser familiares distantes. Mas também podiam ser apenas duas desconhecidas até ao momento em que foram vistas juntas.
- É com o meu noivo que deves falar. - foi a resposta que a senhora deu à rapariga. Não se sabe qual seria a questão. Não se sabe o que ela pretendia naquela tarde de sol em que chegou à cidade com o mundo reflectido no castanho dos olhos.
A rapariga foi ao encontro do noivo da dona da casa do fim da rua. Ele era um homem de ciência, nos seus trinta e alguns anos. Usava uns óculos de lentes grossas que lhe escondiam os olhos verdes. Foi através deles que a viu. Linda e perturbante. A calma dela e o seu sorriso constrangedor provocaram-lhe um estranho efeito. Como se ficasse com febre de repente. Talvez fosse do sol forte, talvez fosse da mudança de estação. Pediu-lhe que ali aguardasse alguns momentos, enquanto ia falar com a sua noiva. Para confirmar alguma coisa, talvez. Doeu-lhe a surpresa com sabor de desilusão que leu nos olhos dela. E deixou-a só. Se se ia casar era por amor. Que dúvida restava, então?
A jovem ficou sozinha na estranha divisão. Era um laboratório e ao mesmo tempo era escritório, sala, quarto, biblioteca. As paredes estavam forradas de estantes que para além de centenas de livros continham objectos e instrumentos desconhecidos, que ela se entreteve a observar enquanto pensava na estranha personagem que acabara de sair. Ele tinha cabelos ruivos, compridos e escorridos até ao nível do queixo. E usava uma barba curta que ela tivera vontade de afagar. A bata branca que lhe chegava aos joelhos estava repleta de estranhas nódoas científicas e riscos de caneta.
Foi então que a sua atenção se desviou para a varanda. Era enorme e não tinha gradeamento. Era apenas um pedaço de chão ao ar livre. E encontrava-se lá um telescópio apontado ao céu que estava naquele momento repleto da mistura de tons quentes do poente. No momento em que ela se aproximou para ver melhor aquele espectáculo arrebatador que a natureza lhe oferecia, levantou-se um vendaval tremendo. O vento uivava, gritava, relinchava assustadoramente. Uma rajada empurrou brutalmente a rapariga para fora da varanda e ela ficou pendurada apenas pelos braços, à altura de dois andares.
Foi nesse instante que ele entrou, logo tomado pelo pânico. Caía um dilúvio. A tempestade destruíra o interior do laboratório (tinha até arrancado pela raíz os plátanos da casa do fim da rua) e as estantes caídas bloqueavam-lhe a passagem. Tentou desesperadamente empurrar os obstáculos que o separavam da rapariga e o impediam de a salvar. Ela riu do absurdo da situação e no momento em que ele conseguiu passar para correr até ela, veio nova rajada de vento que a elevou. Como se voasse, ela pedalou no vazio e foi impulsionada para os braços dele.
- Vês? Nem tudo é ciência. Isto agora foi magia.
Ele ajudou-a a despir as roupas encharcadas e afastou-lhe o cabelo dos olhos. Indicou-lhe o quarto de banho, onde podia tomar um duche quente. Mas ela não se moveu e continuou a fixá-lo. Lentamente, começou a desapertar-lhe os botões da bata suja e beijou o cientista incrédulo.
Fizeram amor no meio do caos que os rodeava, e foi como se o mundo fizesse sentido outra vez. Durante os momentos em que estiveram unidos naquela dança carnal em que a chuva que entrava pela janela aberta lhes fustigava os corpos enleados, o cientista fez a maior descoberta da sua vida. Descobriu o amor. Era diferente do carinho, da amizade, da admiração e dos outros sentimentos bonitos que nutria pela sua noiva. Ele desejava esta rapariga como nunca pensara que se podia desejar alguma coisa. Era luxúria, era paixão. Ele queria protegê-la de todos os males e cuidar dela. E sentia-se vulnerável perante o seu olhar. Era amor, enfim.
E quando ambos atingiram o auge das suas paixões, escutaram um estrondo pavoroso e inconfundível. Também vinha de cima mas não era um trovão. O cheiro da pólvora e do sangue não lhes deixou lugar para dúvidas. Ambos sentiram o mesmo projéctil penetrar-lhes as carnes, quase em simultâneo. Primeiro ele, depois ela. Tinham sido assassinados pela traição. E sem desfazer o abraço das suas pernas em volta da cintura dele, ela disse:
- Se sobrevivessemos, ficavamos com uma cicatriz para nos recordar a nossa primeira noite de amor...
A única pessoa com quem foi vista a falar foi com a dona da casa do fim da rua. Era uma casa grande com um lindo jardim, rodeada de plátanos. A dona da casa era uma senhora elegante, de voz suave, com os seus sessenta ou setenta anos. Usava os cabelos brancos apanhados num bonito rolo no alto da cabeça e tinha uns olhos sábios, azuis e bondosos. Quem sabe se elas já se conheciam? Podiam até ser familiares distantes. Mas também podiam ser apenas duas desconhecidas até ao momento em que foram vistas juntas.
- É com o meu noivo que deves falar. - foi a resposta que a senhora deu à rapariga. Não se sabe qual seria a questão. Não se sabe o que ela pretendia naquela tarde de sol em que chegou à cidade com o mundo reflectido no castanho dos olhos.
A rapariga foi ao encontro do noivo da dona da casa do fim da rua. Ele era um homem de ciência, nos seus trinta e alguns anos. Usava uns óculos de lentes grossas que lhe escondiam os olhos verdes. Foi através deles que a viu. Linda e perturbante. A calma dela e o seu sorriso constrangedor provocaram-lhe um estranho efeito. Como se ficasse com febre de repente. Talvez fosse do sol forte, talvez fosse da mudança de estação. Pediu-lhe que ali aguardasse alguns momentos, enquanto ia falar com a sua noiva. Para confirmar alguma coisa, talvez. Doeu-lhe a surpresa com sabor de desilusão que leu nos olhos dela. E deixou-a só. Se se ia casar era por amor. Que dúvida restava, então?
A jovem ficou sozinha na estranha divisão. Era um laboratório e ao mesmo tempo era escritório, sala, quarto, biblioteca. As paredes estavam forradas de estantes que para além de centenas de livros continham objectos e instrumentos desconhecidos, que ela se entreteve a observar enquanto pensava na estranha personagem que acabara de sair. Ele tinha cabelos ruivos, compridos e escorridos até ao nível do queixo. E usava uma barba curta que ela tivera vontade de afagar. A bata branca que lhe chegava aos joelhos estava repleta de estranhas nódoas científicas e riscos de caneta.
Foi então que a sua atenção se desviou para a varanda. Era enorme e não tinha gradeamento. Era apenas um pedaço de chão ao ar livre. E encontrava-se lá um telescópio apontado ao céu que estava naquele momento repleto da mistura de tons quentes do poente. No momento em que ela se aproximou para ver melhor aquele espectáculo arrebatador que a natureza lhe oferecia, levantou-se um vendaval tremendo. O vento uivava, gritava, relinchava assustadoramente. Uma rajada empurrou brutalmente a rapariga para fora da varanda e ela ficou pendurada apenas pelos braços, à altura de dois andares.
Foi nesse instante que ele entrou, logo tomado pelo pânico. Caía um dilúvio. A tempestade destruíra o interior do laboratório (tinha até arrancado pela raíz os plátanos da casa do fim da rua) e as estantes caídas bloqueavam-lhe a passagem. Tentou desesperadamente empurrar os obstáculos que o separavam da rapariga e o impediam de a salvar. Ela riu do absurdo da situação e no momento em que ele conseguiu passar para correr até ela, veio nova rajada de vento que a elevou. Como se voasse, ela pedalou no vazio e foi impulsionada para os braços dele.
- Vês? Nem tudo é ciência. Isto agora foi magia.
Ele ajudou-a a despir as roupas encharcadas e afastou-lhe o cabelo dos olhos. Indicou-lhe o quarto de banho, onde podia tomar um duche quente. Mas ela não se moveu e continuou a fixá-lo. Lentamente, começou a desapertar-lhe os botões da bata suja e beijou o cientista incrédulo.
Fizeram amor no meio do caos que os rodeava, e foi como se o mundo fizesse sentido outra vez. Durante os momentos em que estiveram unidos naquela dança carnal em que a chuva que entrava pela janela aberta lhes fustigava os corpos enleados, o cientista fez a maior descoberta da sua vida. Descobriu o amor. Era diferente do carinho, da amizade, da admiração e dos outros sentimentos bonitos que nutria pela sua noiva. Ele desejava esta rapariga como nunca pensara que se podia desejar alguma coisa. Era luxúria, era paixão. Ele queria protegê-la de todos os males e cuidar dela. E sentia-se vulnerável perante o seu olhar. Era amor, enfim.
E quando ambos atingiram o auge das suas paixões, escutaram um estrondo pavoroso e inconfundível. Também vinha de cima mas não era um trovão. O cheiro da pólvora e do sangue não lhes deixou lugar para dúvidas. Ambos sentiram o mesmo projéctil penetrar-lhes as carnes, quase em simultâneo. Primeiro ele, depois ela. Tinham sido assassinados pela traição. E sem desfazer o abraço das suas pernas em volta da cintura dele, ela disse:
- Se sobrevivessemos, ficavamos com uma cicatriz para nos recordar a nossa primeira noite de amor...
Qualquer dia, sim.
Era bom que fosse sempre verdade quando respondo que sim se me perguntam se está tudo bem. Talvez devesse passar a responder "Não. Mas vai ficar. Vai ficar tudo bem."
sexta-feira, 14 de abril de 2006
Jean-Arthur, mon amour.
Sou uma fada verde desde sempre. O absinto estava no meu destino, eu é que não sabia. E o nosso amor é verde; é verde-absinto. Dancemos de garrafas vazias na mão, até cairmos zonzos e cansados. Pena não sabermos dançar. Pena dançarmos tão mal. Mas não importa porque contigo não há nada que não seja correcto e bonito. Nem o absinto. Contigo, as estrelas estão sempre alinhadas. Alinhavadas na nossa sede. Dancemos então, até cairmos. Dancemos, Jean-Arthur, até cairmos na areia escaldante do deserto, mon amour. Caídos de amor, deixemos os nossos corpos derreter com o calor. Sempre quis saber a que sabem os lábios de um poeta. Tu és o poeta rebelde. E os teus lábios estão quentes, Jean-Arthur. Esperava que estivessem frios como os dos homens mortos, mon amour. Mas os teus ainda murmuram palavras. E tens palavras de uma morbidez tal que ninguém te diria imortal.
Estamos deitados na areia; já bebemos, já dançámos, já nos beijámos. Parte a garrafa, mas cuidado com os vidros, não te cortes. Estás descalço. Chora agora, escondido no meio do meu abraço, porque para mim a tua poesia não é uma mera alínea. Estou contigo na Abissínia. O amor é um deserto e é a poesia que nos mata a sede. Ou pensaste que era o absinto? Não te afogues, não te esqueças. Jean-Arthur, és para sempre, mon amour.
Estamos deitados na areia; já bebemos, já dançámos, já nos beijámos. Parte a garrafa, mas cuidado com os vidros, não te cortes. Estás descalço. Chora agora, escondido no meio do meu abraço, porque para mim a tua poesia não é uma mera alínea. Estou contigo na Abissínia. O amor é um deserto e é a poesia que nos mata a sede. Ou pensaste que era o absinto? Não te afogues, não te esqueças. Jean-Arthur, és para sempre, mon amour.
quarta-feira, 12 de abril de 2006
Numa noite qualquer.
- Onde é que queres que te deixe? Em casa? - perguntou ela.
- Não. Não quero que me deixes em lado nenhum. Nunca. - respondeu ele.
- Está bem. - disse ela.
Houve uma pausa.
E em seguida houve um beijo extremamente sensual em que o lábio inferior dela deslizou lentamente por entre os lábios dele. Tinham os olhos apenas semicerrados e não sorriam.
Vrruuuuuum!
E foram felizes para sempre.
- Não. Não quero que me deixes em lado nenhum. Nunca. - respondeu ele.
- Está bem. - disse ela.
Houve uma pausa.
E em seguida houve um beijo extremamente sensual em que o lábio inferior dela deslizou lentamente por entre os lábios dele. Tinham os olhos apenas semicerrados e não sorriam.
Vrruuuuuum!
E foram felizes para sempre.
segunda-feira, 10 de abril de 2006
Inutilidades com sentido:
- Gesto inútil de fechar os olhos para não ver as imagens que nos passam pela mente e torná-las ainda mais nítidas na escuridão;
- Gesto inútil de suster a respiração para acalmar o passo do coração e ficar sem fôlego, acelerando-o ainda mais;
- Gesto inútil de parar de andar porque nos tremem os joelhos e sentir que o chão nos foge debaixo dos pés;
- Gesto inútil de chorar para expulsar a tristeza e ficar o coração ainda mais seco e vazio que antes;
- Gesto inútil de dizer que não desviando o olhar e denunciar o sim que queríamos gritar;
- Gesto inútil de abrir os olhos com toda a força para não chorar e as lágrimas acumularem até não caber nos olhos e caírem livremente até termos de os cerrar.
Tolos que somos, desviamo-nos dos espelhos e tentamos enganar-nos a nós próprios, mas há coisas de que não podemos fugir. Para quê mentir?
- Gesto inútil de suster a respiração para acalmar o passo do coração e ficar sem fôlego, acelerando-o ainda mais;
- Gesto inútil de parar de andar porque nos tremem os joelhos e sentir que o chão nos foge debaixo dos pés;
- Gesto inútil de chorar para expulsar a tristeza e ficar o coração ainda mais seco e vazio que antes;
- Gesto inútil de dizer que não desviando o olhar e denunciar o sim que queríamos gritar;
- Gesto inútil de abrir os olhos com toda a força para não chorar e as lágrimas acumularem até não caber nos olhos e caírem livremente até termos de os cerrar.
Tolos que somos, desviamo-nos dos espelhos e tentamos enganar-nos a nós próprios, mas há coisas de que não podemos fugir. Para quê mentir?
quinta-feira, 6 de abril de 2006
Amanhecer.
A noite extinguia-se diante dos teus olhos. Pensaste que seria o momento oportuno. Mas não sabias que caminho havias de tomar. Enquanto o negro do céu se tornava violeta e depois azul e as estrelas desapareciam aos poucos, ficaste a pensar. Havia tempo. Não muito, mas um pouco era o suficiente. Pelo menos até que surgisse a manhã. Pensaste em caminhar depressa, muito depressa, quase a correr, até casa. Antes que o brilho do sol te cegasse os olhos desabituados da luz, ao despontar. Podias fechar as persianas do teu quarto e dormir até ao fim da tarde, sem sonhar. O descanso absoluto. Mas sabias que não ias conseguir porque as insónias eram agora a excepção que se tornara regra. Constantes. Sentias até que eram praticamente a única coisa com que podias contar, que tinhas de certo na tua vida.
Em vez disso, escolheste outra rota. Levantaste-te cheio de calma, ainda que fosse uma calma auto-imposta, e sacudiste a areia das calças. Voltaste as costas ao ponto mais claro do céu, onde o sol ia nascer, trepando pelas ondas, e dirigiste-te devagarinho para uma esplanada. O café ainda estava fechado, mas tu não te importavas de esperar. Sentaste-te numa cadeira verde de plástico, sem te preocupares com a humidade da noite que se acumulara no assento, e puxaste de uma folha de papel do bolso interior do teu casaco de camurça. Procuraste a caneta e quando a encontraste começaste a escrever uma carta. A folha colava-se à mesa meio molhada, mas estavas tão concentrado nas palavras que nem notaste. Era uma carta do teu eu para ti. Como se te dividisses em dois e isso te tornasse mais completo. Também não te apercebeste do aumento gradual da intensidade da luz que incidia nas tuas palavras escritas avidamente e só ao pousares a caneta é que viste que já era de dia.
Tal como a carta, também tu estavas pronto. Não para começar de novo, mas para continuar de forma diferente. O que ficava para trás continuava a ser importante mas o que tinhas pela frente, ou o que podias fazer disso, prometia ser muito melhor.
Levantaste-te da cadeira, ainda com o café fechado, e andaste muito depressa, quase a correr, até casa. Entraste no teu quarto, descalçaste-te e despiste o casaco. Mas em vez de te deitares para tentar dormir, foste até à cozinha fazer o pequeno-almoço. Estavas mais acordado do que nunca. O que escreveste não importa. Afinal, era só para ti. Mas sei que no final do dia, quando finalmente te deitaste, dormiste o melhor sono da tua vida, desde criança. Sem qualquer lembrança de insónias.
Em vez disso, escolheste outra rota. Levantaste-te cheio de calma, ainda que fosse uma calma auto-imposta, e sacudiste a areia das calças. Voltaste as costas ao ponto mais claro do céu, onde o sol ia nascer, trepando pelas ondas, e dirigiste-te devagarinho para uma esplanada. O café ainda estava fechado, mas tu não te importavas de esperar. Sentaste-te numa cadeira verde de plástico, sem te preocupares com a humidade da noite que se acumulara no assento, e puxaste de uma folha de papel do bolso interior do teu casaco de camurça. Procuraste a caneta e quando a encontraste começaste a escrever uma carta. A folha colava-se à mesa meio molhada, mas estavas tão concentrado nas palavras que nem notaste. Era uma carta do teu eu para ti. Como se te dividisses em dois e isso te tornasse mais completo. Também não te apercebeste do aumento gradual da intensidade da luz que incidia nas tuas palavras escritas avidamente e só ao pousares a caneta é que viste que já era de dia.
Tal como a carta, também tu estavas pronto. Não para começar de novo, mas para continuar de forma diferente. O que ficava para trás continuava a ser importante mas o que tinhas pela frente, ou o que podias fazer disso, prometia ser muito melhor.
Levantaste-te da cadeira, ainda com o café fechado, e andaste muito depressa, quase a correr, até casa. Entraste no teu quarto, descalçaste-te e despiste o casaco. Mas em vez de te deitares para tentar dormir, foste até à cozinha fazer o pequeno-almoço. Estavas mais acordado do que nunca. O que escreveste não importa. Afinal, era só para ti. Mas sei que no final do dia, quando finalmente te deitaste, dormiste o melhor sono da tua vida, desde criança. Sem qualquer lembrança de insónias.
quinta-feira, 30 de março de 2006
Always late.
- Tudo por causa de certas e determinadas pessoas que chegam sempre atrasadas. Não é, minha menina?
- Quem me dera ser certa e determinada. Mas a verdade é que a incerteza e a hesitação reinam sobre mim. É por hesitar tanto que chego atrasada. Peço desculpa!
- Erm...
- Yah, eu sei. Não é todos os dias que se leva com uma resposta destas. Beware! As respostas inesperadas esperam-nos a cada esquina. Nunca se sabe quando se vai levar com uma.
- Pois...
- Nevermind. I rule. Though I'm always late.
- Quem me dera ser certa e determinada. Mas a verdade é que a incerteza e a hesitação reinam sobre mim. É por hesitar tanto que chego atrasada. Peço desculpa!
- Erm...
- Yah, eu sei. Não é todos os dias que se leva com uma resposta destas. Beware! As respostas inesperadas esperam-nos a cada esquina. Nunca se sabe quando se vai levar com uma.
- Pois...
- Nevermind. I rule. Though I'm always late.
sexta-feira, 24 de março de 2006
Sou bué da estóica, disse eu um dia.
- Olá. Tenho muitos nomes, sabes? Hoje chamo-me Lídia. Sou a Lídia. Sou uma pagã triste, de flores no regaço. Triste porque nunca tive coragem de enlaçar a minha mão na tua. Que é como quem diz que nunca te convidei para tomar café. Achei que cedo a libertarias. Que não ias gostar da pressão dos meus dedos nos teus. Que dirias que não. Achei que custava menos ficar a ver a vida a passar. Como um comboio reservado do Metropolitano de Lisboa. Afinal e de facto, não é profissão para mim. E, na verdade, também não é o meu nome do meio. Aliás, digo-te mesmo. Merda para o estoicismo.
quinta-feira, 23 de março de 2006
Dias chuvosos
Porque será que nos dias em que choro não posso sair à rua sem levar com uma chuva de piropos? É ridículo. Vai uma pessoa a sentir-se miserável e ainda tem de ouvir baboseiras daquelas. Não há direito! Será uma tentativa do Universo para me fazer sentir melhor? Lamento, mas se era essa a intenção, não dá lá grande resultado. Antes pelo contrário. Ainda me consegue deixar mais mal-disposta.
E quando estou naquele dark mood em que só me apetece ficar em casa enrolada no sofá, debaixo de uma manta, a ver filmes lindos e deprimentes, mas faço um esforço e vou sair para ver pessoas e me dizem Estás tão bonita hoje!! Não é que duvide da visão das pessoas, mas quando me sinto tão na merda, custa-me a acreditar. Daí que a resposta seja um Obrigada!... sumido e um sorriso amarelo. Não é timidez nem modéstia. É só descrença.
Isto tudo leva-me a chegar a uma conclusão. Porque depois de alguns anos de meditação sobre o assunto, cheguei sempre à mesma conclusão, é verdade. Talvez seja uma predisposição humana para achar bonito o que é triste. De ver beleza na melancolia. Se calhar a Maria Madalena nem era tão bonita quanto se pensa. Mas a vida infeliz dela pode ter-lhe conferido aquela aura de beldade tétrica. Assim uma mistura de sangue, lágrimas e beleza, em que umas se confundem com as outras. De outra forma não faz sentido acharmos um rosto contorcido, vermelho, inchado, de olhos, nariz e boca molhados de lágrimas, ranho e baba, belo em vez de grotesco.
E quando estou naquele dark mood em que só me apetece ficar em casa enrolada no sofá, debaixo de uma manta, a ver filmes lindos e deprimentes, mas faço um esforço e vou sair para ver pessoas e me dizem Estás tão bonita hoje!! Não é que duvide da visão das pessoas, mas quando me sinto tão na merda, custa-me a acreditar. Daí que a resposta seja um Obrigada!... sumido e um sorriso amarelo. Não é timidez nem modéstia. É só descrença.
Isto tudo leva-me a chegar a uma conclusão. Porque depois de alguns anos de meditação sobre o assunto, cheguei sempre à mesma conclusão, é verdade. Talvez seja uma predisposição humana para achar bonito o que é triste. De ver beleza na melancolia. Se calhar a Maria Madalena nem era tão bonita quanto se pensa. Mas a vida infeliz dela pode ter-lhe conferido aquela aura de beldade tétrica. Assim uma mistura de sangue, lágrimas e beleza, em que umas se confundem com as outras. De outra forma não faz sentido acharmos um rosto contorcido, vermelho, inchado, de olhos, nariz e boca molhados de lágrimas, ranho e baba, belo em vez de grotesco.
segunda-feira, 20 de março de 2006
A História do Cão Azul
Era um cão com cara de gato. Tinha bigodes compridos e tudo. O pêlo cinzento, por vezes, parecia azul, talvez por causa da luz, o que fazia com que parecesse um cão de outro planeta. Isso e os olhos, que pareciam olhos de pessoa e faziam as pessoas que para lá olhavam arrepiar-se. Era um cão que ladrava como quem ri, uivava como quem chora e usava a cauda em forma de ponto de interrogação. Era um cão pançudo, que gostava de se espreguiçar ao sol, como um gato. Era um cão semeado; aparecia em todo o lado.
Para além das crianças, que achavam que ele era um extraterrestre, havia mais quem tivesse as suas teorias sobre o cão azul. Uns diziam que era um fantasma e assombrava as ruas. Outros achavam que era um demónio e dava azar a quem o visse. Outros ainda, diziam que dava sorte, porque era uma espécie de criatura mágica. Havia também quem dissesse que o cão era um anjo da guarda, um enviado dos céus para combater os maus e proteger os bons. Por último, pelo menos que se saiba, havia a teoria de que era uma pessoa reincarnada, por causa dos olhos. Nada de novo, portanto. Claro que no meio disto tudo, quem estava mais perto da verdade eram as crianças. Como sempre, aliás. Afinal, era um cão que se portava como quem não sabia nada e estava a descobrir tudo pela primeira vez. E pela forma como investigava minuciosamente todos os recantos, enfiando o seu nariz húmido e rosado, como os dos gatos, em todos os lugares onde conseguia chegar; bem que podia ter sido enviado de uma estrela distante para estudar o planeta Terra.
Era um cão que gostava de brincar. E que comia flores. Era um cão especial porque não tinha dono. Era livre e era selvagem como um lobo, mas era meigo como um gato de estimação. Era um cão que gostava de lamber as mãos às crianças e tinha uma língua áspera como as dos gatos, que fazia cócegas.
Andava uma noite a brincar com um pirilampo. Uma luzinha pequenina e amarela que piscava e brilhava no meio da escuridão. O cão ouvia o seu riso pequenino e achava que era uma fada. Porque até os cães sabem fantasiar. Pelo menos aquele sabia. Tentava tocar na luzinha com a sua pata azul, levantando-a à altura do seu focinho pontiagudo, como fazem os gatos quando brincam. Mas a luzinha do pirilampo era tão pequenina, tão pequenina, que o carro vermelho não a viu. E na manhã seguinte, a rua ficou mais triste, porque o pêlo fofo do cão era apenas cinzento. Tinha-se acabado o azul. E a língua áspera pendia-lhe inerte por entre os dentes afiados que costumavam morder as flores. Sem vida. Sem azul.
Era um cão que gostava de brincar. E que comia flores. Era um cão especial porque não tinha dono. Era livre e era selvagem como um lobo, mas era meigo como um gato de estimação. Era um cão que gostava de lamber as mãos às crianças e tinha uma língua áspera como as dos gatos, que fazia cócegas.
Andava uma noite a brincar com um pirilampo. Uma luzinha pequenina e amarela que piscava e brilhava no meio da escuridão. O cão ouvia o seu riso pequenino e achava que era uma fada. Porque até os cães sabem fantasiar. Pelo menos aquele sabia. Tentava tocar na luzinha com a sua pata azul, levantando-a à altura do seu focinho pontiagudo, como fazem os gatos quando brincam. Mas a luzinha do pirilampo era tão pequenina, tão pequenina, que o carro vermelho não a viu. E na manhã seguinte, a rua ficou mais triste, porque o pêlo fofo do cão era apenas cinzento. Tinha-se acabado o azul. E a língua áspera pendia-lhe inerte por entre os dentes afiados que costumavam morder as flores. Sem vida. Sem azul.
segunda-feira, 13 de março de 2006
Ser ou não ser?
Nunca fui capaz de definir muito bem se sou uma optimista ou uma pessimista. Há muito tempo que sou fiel ao princípio de esperar sempre o melhor estando preparada para o pior. Lá está! A tal história do hipotético e do relativo. Ou não tivesse este blogue o título que tem! Nunca se sabe. Prefiro concentrar-me em encontrar as perguntas certas que em procurar respostas. Acho que as respostas é que, mais tarde ou mais cedo, acabam por me encontrar a mim. Mas para as compreender tenho de estar preparada para elas. E que melhor forma de estar preparada para o abalo das respostas do que tendo as questões possíveis já imaginadas? Assim talvez não precise de me sentar, e respirar fundo seja o suficiente. Este é um dos motivos porque o Shakespeare e o Sérgio Godinho são importantes para mim. (*)
Hoje apercebi-me de uma coisa. E é tão óbvio, tão óbvio, que me senti estúpida por só agora ter dado forma a esta ideia, ou sentimento, ou seja lá o que puder ser. Tudo junto, se calhar. Às vezes ponho-me a sofrer por antecipação. Pronto, muitas vezes. Mas a verdade é que não é por estar preparada para o pior que se o pior acontecer vai doer menos. Talvez até, por acumulação, doa mais. Acaba por ser tudo um pouco inútil. Só vale a pena prever o pior se fizer alguma coisa para o impedir. E se estiver fora do meu alcance, se for algo de inevitável, caso se concretize, há tempo de sobra para lamentá-lo.
Enquanto só existe a dúvida, o melhor é ser feliz, antes que chegue a certeza. Senão nunca podia sorrir.
E neste momento, apesar de ter medo do que possa vir aí, e porque se trata de uma daquelas hipóteses que me deixam impotente, de mãos atadas contra a vida, não posso deixar de sorrir. Porque a esperança é maior do que tudo. E porque se calhar ninguém acredita tanto como eu. Que vai correr tudo bem. Ou talvez seja apenas ingenuidade minha. Infantilidade até. Mas a verdade é que enquanto os vejo todos de rosto fechado e olhos húmidos (porque é que ninguém fala?), vejo-me a mim no meio, de sorriso nos lábios, voz alegre e palavras leves, e sinto-me ridícula. Porque também tenho o coração apertado e vontade de chorar. Provavelmente julgam-me insensível, indiferente, ou pior, julgam-me tola. Mas não me importo, porque se calhar assim não lhes peso no coração.
(*)
Ser ou não ser gente
ter ou não ter sonhos
mais exactamente
vir
à tona dos sonhos
Ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar
(...)
Ser ou não ser, Sérgio Godinho
To be, or not to be: that is the question
[...]to die to sleep!
To sleep, perchance to dream, ay there's the rub,
For in that sleep of death what dreams may come
Hamlet, William Shakespeare
Hoje apercebi-me de uma coisa. E é tão óbvio, tão óbvio, que me senti estúpida por só agora ter dado forma a esta ideia, ou sentimento, ou seja lá o que puder ser. Tudo junto, se calhar. Às vezes ponho-me a sofrer por antecipação. Pronto, muitas vezes. Mas a verdade é que não é por estar preparada para o pior que se o pior acontecer vai doer menos. Talvez até, por acumulação, doa mais. Acaba por ser tudo um pouco inútil. Só vale a pena prever o pior se fizer alguma coisa para o impedir. E se estiver fora do meu alcance, se for algo de inevitável, caso se concretize, há tempo de sobra para lamentá-lo.
Enquanto só existe a dúvida, o melhor é ser feliz, antes que chegue a certeza. Senão nunca podia sorrir.
E neste momento, apesar de ter medo do que possa vir aí, e porque se trata de uma daquelas hipóteses que me deixam impotente, de mãos atadas contra a vida, não posso deixar de sorrir. Porque a esperança é maior do que tudo. E porque se calhar ninguém acredita tanto como eu. Que vai correr tudo bem. Ou talvez seja apenas ingenuidade minha. Infantilidade até. Mas a verdade é que enquanto os vejo todos de rosto fechado e olhos húmidos (porque é que ninguém fala?), vejo-me a mim no meio, de sorriso nos lábios, voz alegre e palavras leves, e sinto-me ridícula. Porque também tenho o coração apertado e vontade de chorar. Provavelmente julgam-me insensível, indiferente, ou pior, julgam-me tola. Mas não me importo, porque se calhar assim não lhes peso no coração.
(*)
Ser ou não ser gente
ter ou não ter sonhos
mais exactamente
vir
à tona dos sonhos
Ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar
(...)
Ser ou não ser, Sérgio Godinho
To be, or not to be: that is the question
[...]to die to sleep!
To sleep, perchance to dream, ay there's the rub,
For in that sleep of death what dreams may come
Hamlet, William Shakespeare
sexta-feira, 10 de março de 2006
Ando a ouvir vozes!
É o mundo inteiro que me grita que saia! Que vá viajar! Que me faz querer alargar os horizontes!
Tenho recebido sinais claros e óbvios. O Universo anda a enviar-me mensagens explícitas. Primeiro foi quando vi A Residência Espanhola. Como dizer? Era, claramente, uma indirecta para eu ir de Erasmus e tornar-me escritora. Faz sentido. Às tantas podia viver uma aventura marada que desse um livro. Se bem que o verdadeiro artista é aquele que cria algo de belo que não tenha nada de autobiográfico. Como o Oscar Wilde. Mas para isso acho que ainda tenho de crescer mais um bocadito. Ainda sou demasiado egocêntrica para não escrever sobre mim. Ainda estou demasiado fascinada pela própria vivência.
Mas como eu ia dizendo, os sinais cósmicos. Depois do filme, foi a despedida no aeroporto. Fui dizer até daqui a uns meses aos três demónios que foram de Erasmus para Siena, Itália. Que vontade de ir com elas! Foi aí que comecei a decidir, assim à doida, ir também à aventura. E depois também havia os outros três caramelos que foram para Torino. E a M.J. a contar-me as maluqueiras da Bélgica, no semestre passado. E o John a dizer que vai para a Finlândia.
E depois outro filme. Ou melhor, outros dois. Vi o Before Sunrise e o Before Sunset seguidinhos, assim de shot, e foi a gota de água. O romantismo é aquela cena, não consigo resistir! E ainda por cima o Jesse também escreve um livro! Já começam a ser demasiados iscos para eu não morder nenhum. E agora é o meu caloiro que vai passear a NYC com a Ju, os dois assim à parvalhão! A inveja é um sentimento muito feio, yo, mas eu nunca fui uma menina bonita, ye.
Erasmus. Parece-me bem. Acima de tudo é preciso reunir coragem para ficar longe durante cinco ou seis meses. Basta não dar parte de fraca e eu sou perita em armar-me em forte! É isso. Está decidido! Quase decidido, que isto do definitivo não combina muito comigo. Eu sou mais da equipa do hipotético e do relativo. Mas é bom fazer planos! Siga lá!
Um forte abraço aos aventureiros intrépidos que estão ausentes,
e uma palmadinha nas costas aos que, como eu, o pretendem ser também.
Aos restantes, as minhas saudações amigáveis.
Até breve! ;)
P.S. - Qual semestre! Vou um ano!!
P.P.S. - Alemanhaaaaaaa!
Tenho recebido sinais claros e óbvios. O Universo anda a enviar-me mensagens explícitas. Primeiro foi quando vi A Residência Espanhola. Como dizer? Era, claramente, uma indirecta para eu ir de Erasmus e tornar-me escritora. Faz sentido. Às tantas podia viver uma aventura marada que desse um livro. Se bem que o verdadeiro artista é aquele que cria algo de belo que não tenha nada de autobiográfico. Como o Oscar Wilde. Mas para isso acho que ainda tenho de crescer mais um bocadito. Ainda sou demasiado egocêntrica para não escrever sobre mim. Ainda estou demasiado fascinada pela própria vivência.
Mas como eu ia dizendo, os sinais cósmicos. Depois do filme, foi a despedida no aeroporto. Fui dizer até daqui a uns meses aos três demónios que foram de Erasmus para Siena, Itália. Que vontade de ir com elas! Foi aí que comecei a decidir, assim à doida, ir também à aventura. E depois também havia os outros três caramelos que foram para Torino. E a M.J. a contar-me as maluqueiras da Bélgica, no semestre passado. E o John a dizer que vai para a Finlândia.
E depois outro filme. Ou melhor, outros dois. Vi o Before Sunrise e o Before Sunset seguidinhos, assim de shot, e foi a gota de água. O romantismo é aquela cena, não consigo resistir! E ainda por cima o Jesse também escreve um livro! Já começam a ser demasiados iscos para eu não morder nenhum. E agora é o meu caloiro que vai passear a NYC com a Ju, os dois assim à parvalhão! A inveja é um sentimento muito feio, yo, mas eu nunca fui uma menina bonita, ye.
Erasmus. Parece-me bem. Acima de tudo é preciso reunir coragem para ficar longe durante cinco ou seis meses. Basta não dar parte de fraca e eu sou perita em armar-me em forte! É isso. Está decidido! Quase decidido, que isto do definitivo não combina muito comigo. Eu sou mais da equipa do hipotético e do relativo. Mas é bom fazer planos! Siga lá!
Um forte abraço aos aventureiros intrépidos que estão ausentes,
e uma palmadinha nas costas aos que, como eu, o pretendem ser também.
Aos restantes, as minhas saudações amigáveis.
Até breve! ;)
P.S. - Qual semestre! Vou um ano!!
P.P.S. - Alemanhaaaaaaa!
sexta-feira, 3 de março de 2006
A pensar morreu um burro.
E de repente, nasce-me uma vontade de fazer tudo!
De ouvir todas as músicas que há para ouvir, de ler todos os livros que há para ler, de ver todos os filmes que há para ver. De tirar fotografias a tudo e a todos para nunca me esquecer de nada nem de ninguém. De escrever todas as palavras, todas as ideias, para não deixar fugir nenhuma. De gravar todos os risos e todas as vozes à minha volta porque são tão bonitos e queria poder ouvi-los sempre.
E olho em meu redor.
Estou num quarto onde reina o caos e a confusão porque nunca tenho tempo de o arrumar. Proliferam os cadernos vazios e ainda a cheirar a novo em que nunca tive tempo de escrever. Tenho um livro na secretária, à espera que eu lhe volte a pegar. Já está à espera há quase um mês. E tantos outros na prateleira à espera de vez. Tenho um computador cheio de músicas que nunca ouvi e tão cedo não vou ouvir. Porque não tenho tempo. Tenho molduras vazias porque nunca tive tempo de as encher de fotografias. Na rua, lá em baixo, aqui ao lado, tenho um clube de vídeo do qual nunca me fiz sócia. E tive tanto tempo...
Estava sentada no sofá a pensar. Só a pensar. O cérebro fervilha-me de ideias, desejos, recordações. De palavras. E deixo-me estar assim, a pensar. A vida toda assim. Desde sempre ou há mais tempo do que me consigo lembrar.
Penso demais. Às vezes dou por mim a pensar que penso demais.
Vou sair para comprar mais um livro! E penso pelo caminho.
De ouvir todas as músicas que há para ouvir, de ler todos os livros que há para ler, de ver todos os filmes que há para ver. De tirar fotografias a tudo e a todos para nunca me esquecer de nada nem de ninguém. De escrever todas as palavras, todas as ideias, para não deixar fugir nenhuma. De gravar todos os risos e todas as vozes à minha volta porque são tão bonitos e queria poder ouvi-los sempre.
E olho em meu redor.
Estou num quarto onde reina o caos e a confusão porque nunca tenho tempo de o arrumar. Proliferam os cadernos vazios e ainda a cheirar a novo em que nunca tive tempo de escrever. Tenho um livro na secretária, à espera que eu lhe volte a pegar. Já está à espera há quase um mês. E tantos outros na prateleira à espera de vez. Tenho um computador cheio de músicas que nunca ouvi e tão cedo não vou ouvir. Porque não tenho tempo. Tenho molduras vazias porque nunca tive tempo de as encher de fotografias. Na rua, lá em baixo, aqui ao lado, tenho um clube de vídeo do qual nunca me fiz sócia. E tive tanto tempo...
Estava sentada no sofá a pensar. Só a pensar. O cérebro fervilha-me de ideias, desejos, recordações. De palavras. E deixo-me estar assim, a pensar. A vida toda assim. Desde sempre ou há mais tempo do que me consigo lembrar.
Penso demais. Às vezes dou por mim a pensar que penso demais.
Vou sair para comprar mais um livro! E penso pelo caminho.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2006
Warning!
Ficção, nua e crua.
Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.
Tirando uma coisita ou outra.
Saudações muito sérias e muito sóbrias, como deve ser.
Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.
Tirando uma coisita ou outra.
Saudações muito sérias e muito sóbrias, como deve ser.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
Das cinzas.
Ainda me lembro do dia em que te conheci. Eras igualzinho ao que és hoje! É engraçado como temos a sensação de que a maior parte das pessoas não muda nada e olhamos para nós e achamo-nos tão diferentes daquilo que fomos. Abismalmente.
Mas voltemos ao dia em que te conheci. Alguns segundos (ou minutos, talvez, sei lá) depois de te teres sentado na nossa mesa dei por mim a pensar: Era capaz de me apaixonar por este gajo. Palavra por palavra. Juro. Lembro-me como se tivesse sido na semana passada. Ou melhor ainda. E já passaram anos. Acreditei naquele momento que era possível, provável até, apaixonar-me por ti. E assim foi. Passados uns meses, era impossível negar. Estava perdidamente apaixonada. E ainda hoje tu não sabes! Não fazes ideia. A não ser que algum fala-barato se tenha descosido. Mas acho que não. Foi uma paixão declaradamente secreta. Porque foi na mesma altura em que conheceste a mulher da tua vida. E não era eu.
O mais divertido é que simpatizei com ela! Era incapaz de odiar. Ainda sou. Bem sei que o poeta tem razão quando diz Que o ódio, infelizmente,/quando o clima é de horror,/é forma inteligente/de se morrer de amor.(*) Mas nestas coisas fui sempre um bocado estúpida. Tão esperta para umas coisas, tão burra para outras. Amar até à morte tudo bem, amar até ao ódio é que não. E talvez o meu amor não fosse assim tão grande. É que não cheguei a morrer. Limitei-me a renascer numa nova paixão. Mais forte ainda, confesso. Mas não fiques triste, as circunstâncias eram totalmente diferentes. E assim provei, sem deixar lugar para dúvidas, que se pode renascer sem se ter morrido antes. Parece parvo, mas faz todo o sentido.
E como gosto de ti, faço-te presente de um segredo. Quando se ama alguém de verdade, esse amor nunca chega a morrer. Só adormece. Cuidadinho, porque pode despertar a qualquer instante. É daquelas coisas inesperadas. E não me olhes assim, por favor. Fazes-me frio.
(*) António Gedeão, Amor sem tréguas
Mas voltemos ao dia em que te conheci. Alguns segundos (ou minutos, talvez, sei lá) depois de te teres sentado na nossa mesa dei por mim a pensar: Era capaz de me apaixonar por este gajo. Palavra por palavra. Juro. Lembro-me como se tivesse sido na semana passada. Ou melhor ainda. E já passaram anos. Acreditei naquele momento que era possível, provável até, apaixonar-me por ti. E assim foi. Passados uns meses, era impossível negar. Estava perdidamente apaixonada. E ainda hoje tu não sabes! Não fazes ideia. A não ser que algum fala-barato se tenha descosido. Mas acho que não. Foi uma paixão declaradamente secreta. Porque foi na mesma altura em que conheceste a mulher da tua vida. E não era eu.
O mais divertido é que simpatizei com ela! Era incapaz de odiar. Ainda sou. Bem sei que o poeta tem razão quando diz Que o ódio, infelizmente,/quando o clima é de horror,/é forma inteligente/de se morrer de amor.(*) Mas nestas coisas fui sempre um bocado estúpida. Tão esperta para umas coisas, tão burra para outras. Amar até à morte tudo bem, amar até ao ódio é que não. E talvez o meu amor não fosse assim tão grande. É que não cheguei a morrer. Limitei-me a renascer numa nova paixão. Mais forte ainda, confesso. Mas não fiques triste, as circunstâncias eram totalmente diferentes. E assim provei, sem deixar lugar para dúvidas, que se pode renascer sem se ter morrido antes. Parece parvo, mas faz todo o sentido.
E como gosto de ti, faço-te presente de um segredo. Quando se ama alguém de verdade, esse amor nunca chega a morrer. Só adormece. Cuidadinho, porque pode despertar a qualquer instante. É daquelas coisas inesperadas. E não me olhes assim, por favor. Fazes-me frio.
(*) António Gedeão, Amor sem tréguas
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