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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

História de-gelo.

Eles desejavam-se mutuamente, mas ambos ignoravam o facto de o seu desejo ser correspondido. Então, ignoraram-se reciprocamente na esperança de se tornar objecto de desejo do outro, em profunda ignorância da simetria táctica. Cada vez mais distantes, deixaram apagar o desejo, sedados na frustração do fracasso sedutivo. Um dia caminhavam na baixa de Lisboa, em direcções contrárias, e ao cruzarem-se reconheceram a presença um do outro, trocando um frio acenar de cabeça. Quando digo frio, quero dizer gélido, sibérico, congelante. Tanto que o chão que pisavam começou verdadeiramente a gelar, a uma velocidade estonteante, dezenas de metros em redor. Aterrorizados, olharam em volta. Entre eles, abria-se uma fissura no gelo, com um ruído ensurdecedor. Os estalidos secos do gelo troavam-lhes nos ouvidos. Olharam um para o outro, ainda cheios de terror, e apercebendo-se da sua culpa começaram a rir. As gargalhadas ganhavam um tom cristalino no ar gelado e ecoavam até longe. À medida que eles iam rindo, o gelo começou a derreter. Eles agarravam-se às barrigas, rindo sem parar, e o gelo derretia. As pedras da calçada, a terra e o alcatrão transformavam-se em água. E Lisboa era Veneza, com canais em lugar de ruas. Sempre a rir, eles nadaram até às portas dos Armazéns do Chiado, onde a água acabava, e treparam a margem de alcatrão seco. Subiram a rua e sentaram-se nas escadas da Basílica dos Mártires, recuperando o fôlego. Ali se espraiaram, deixando as roupas secar ao sol, como náufragos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Uma história com moral.

Eu tinha ido ao supermercado com o meu pai, fazer umas compras rápidas para o lanche. Tínhamos acabado de entrar quando por qualquer motivo eu olhei para trás e vi uma senhora de rosto verde, ombros tortos e com um ligeiro coxear. Morta de riso, puxei o meu pai para um dos corredores laterais e, com dificuldade, pelo meio das minhas pequenas gargalhadas nervosas e compulsivas, informei-o:
- Pai, acabei de ver um zombie a andar na nossa direcção. A sério!
E fechei os olhos, para dar mais uma gargalhada. Quando os abri vi com enorme espanto e terror que o meu pai já não estava à minha frente mas entendido no chão, de crânio aberto e vazio. A senhora zombie estava a centímetros de mim, e eu ainda disse:
- Os zombies não existem.
Mas mesmo assim ela comeu o meu cérebro.
É isto que acontece aos meninos e meninas que gozam com as pessoas no supermercado, na rua, na escola e noutros lugares.

P.S. – Come a fruta e os legumes até ao fim, porque o papão não existe mas o cancro sim.

domingo, 12 de outubro de 2008

História do abre-cartas.

Era a inauguração de uma galeria de arte, e as minhas amigas tinham-me dito que a lista de convidados estava repleta não exactamente de jet-sets desenxabidos mas de artistas da moda, pelo que merecia ir vestida para inspirar. Escolhi um vestido de veludo azul, digno de uma diva, ou melhor, de uma musa, e enquanto moldava com alguma dificuldade o cabelo em caracóis largos e aplicava a minha arte nas pinturas do rosto, fui bebendo um copo ou outro de um whisky novo oferecido por um velho ex-namorado. Lembrei-me da primeira vez que tinha provado whisky e perguntei-me como teria sido capaz de repetir a experiência. Tinha quinze anos e a coca-cola tinha acabado; também não havia gelo, pelo que me juntaram água no copo para diluir a bebida. Devo ter dado no máximo dois goles, depois do que despejei a bebida na sanita e vomitei o resto. Voltei a sair da casa de banho com um grande sorriso e o copo vazio, mas por momentos tinha acreditado que ia morrer no chão de azulejos brancos. Agora tinha bebido um terço da garrafa e ainda não me sentia alcoolizada o suficiente para aguentar a noite de sorriso nos lábios. Ainda não estavam assim tão dormentes. Apanhei um táxi e encontrei as minhas amigas à porta da galeria. Entrámos juntas e elas reuniram-se num grupinho, rindo e conversando, enquanto metralhavam olhares sedutores em redor. Eu estava de péssimo humor e tinha a boca seca, pelo que me dirigi imediatamente ao bar. Era o que este tipo de eventos tinha de bom. Pedi um whisky, para continuar no ritmo, mas desta vez dos bons. Dos mais ou menos, que era o que havia. Enquanto observava os movimentos do barman, o homem ao meu lado começou a conversar comigo. Da boca dele saiam apenas banalidades entrecortadas de lisonjas. Uma óbvia e pouco imaginativa tentativa de engate. As minhas respostas mordazes e semi-provocativas surtiram o efeito habitual e ele continuou a falar entusiasticamente. Tinha um aspecto bastante atraente e era nítido que estava habituado a ter sucesso com as mulheres. Ponderei deixar-me seduzir. Seria uma companhia agradável para aquela noite. Voltei para junto das minhas amigas que imediatamente me informaram que o homem com quem tinha estado a falar era um jovem empresário do ramo imobiliário que tinha já seduzido duas delas com promessas de amor profundo e verdadeiro, promessas tão curtas quanto o tempo que tinha passado com elas na cama. Alertaram-me para não cometer o mesmo erro e eu assenti. Claro que não me deixaria levar por promessas, visto que ele queria precisamente o mesmo que eu. Nessa noite deixei-me levar para casa dele, sorrindo muito sempre que ele dizia alguma coisa mais romântica. O meu tédio era profundo. Estava a passar uma fase de brutal desencanto e sustentava-me a álcool e anti-depressivos. Sempre fora fã da auto-medicação. Na manhã seguinte vesti-me enquanto ele ainda dormia e apenas por consideração o acordei para dizer adeus. Ele ficou ridiculamente surpreendido e percebi que não lhe agradou o meu desprendimento. Provavelmente sentia que eu lhe estava a roubar o papel, emasculando-o. Dei por mim a sorrir no elevador, enquanto descia. Pelo menos já era qualquer coisa. Durante a semana seguinte recebi vários telefonemas para o telemóvel, para casa e até para o trabalho. Por mais que me aborrecesse a insistência, também me agradava ser desejada e acabei por ceder. Continuámos a dormir juntos ao longo de dois meses mas ele não era assim tão interessante e o sexo não era assim tão espectacular e eu cansei-me depressa. Comuniquei-lhe a minha decisão de o excluir da minha vida, pois nem sequer me interessava para amigo, afinal não me tinha esquecido que ele partira o coração não de uma mas de duas das minhas melhores amigas. A reacção não foi agradável. Aparentemente ele não era desprovido de sentimentos e tinha-me escolhido a mim para alvo das suas afeições. Eu já me tinha apercebido há muito tempo da dificuldade monstruosa que os homens têm em lidar com a rejeição e por isso senti alguma preocupação. Mas foi apenas momentânea; meia garrafa de gin e três anti-depressivos depois já nem me lembrava que ele tinha existido. Porém, ele não se esqueceu de mim. Começou a esperar-me à porta do trabalho durante a hora de almoço para falar comigo. Parava o carro, pouco discretamente, junto à porta de minha casa, aos fins-de-semana, e controlava os meus movimentos. Em pouco tempo não havia nenhum lugar em que ele não estivesse e eu comecei a ter dificuldade em respirar. Experimentei ignorá-lo mas o resultado não foi bonito. Passei então a cumprimentá-lo com frieza, mas deu no mesmo. Aos poucos, fui-me habituando a ter aquela sombra doentia, até porque o resto da minha existência não era exactamente saudável. Até que um dia. Eu tinha ido beber uns copos, mais uns, com as amigas do costume, mas naquele dia estava a beber com demasiada sofreguidão e fiquei indisposta. Depois de vomitar na casa de banho do bar, bebi mais um copo, para lavar o sabor, e decidi voltar para casa mais cedo. Elas ficaram. Ele estava à minha espera à porta do bar, desta vez fora do carro. O hálito dele tresandava; qual de nós o pior. Voltei a lembrar-me do meu primeiro whisky. Ele agarrou-me com força pelos braços e começou a falar, muito perto de mim. O velho discurso. Eu estava mesmo cansada. Ele começava a inspirar-me um nojo profundo, e a sujidade da rua não ajudava. E eu estava mesmo cansada. Não foi difícil soltar-me e fazer-lhe perder o equilíbrio já instável com um pequeno empurrão. Enquanto ele se debatia com o álcool para se conseguir levantar de novo, eu tive tempo suficiente para procurar dentro da mala. Naquela tarde tinha estado a escolher uma prenda de aniversário para a minha mãe. Fiquei indecisa porque também havia um colar de ágatas amarelas que me agradou bastante. Mas acabei por escolher o abre-cartas com um lindo cabo de prata trabalhada e lâmina de aço inoxidável. Tive tempo para o retirar cuidadosamente do estojo. Ele estava quase de pé, apoiado a um carro. Não havia ninguém em redor. Eu avancei para ele e, com toda a força que tinha, levantei-o pelos cabelos e empurrei-o para cima do capot do carro. Encostei-lhe a lâmina romba à cara, por baixo do olho esquerdo, e jurei que o matava se ele não desaparecesse. Fiz força suficiente para lhe abrir um golpe na cana do nariz. Lambi-lhe o sangue da ferida – acho que estava um pouco anémica nessa altura – e limpei a lâmina no colarinho azul da camisa dele. Fui-me embora, excitada, enquanto ele praguejava na minha direcção. Chamou-me puta. Não sei porquê, mas decidi voltar para trás. A rua continuava estupidamente deserta à excepção da nossa presença. Cravei-lhe o abre-cartas em cheio no coração. E fui para casa feliz, como não me lembrava de me sentir desde pequenina, nos dias de festa. Mesmo feliz. Guardei o abre-cartas de recordação. Nunca ninguém soube que fui eu. Nunca fui apanhada. Foi apenas mais um caso de violência nocturna. Banal. As minhas amigas quiseram ir ao funeral e choraram, abraçadas, admitindo que ele podia não ser a melhor pessoa do mundo, mas mesmo assim sempre fora encantador. Eu reconheci, no meio dos rostos pesarosos, o pintor cujos quadros tinham inaugurado a galeria e fui falar com ele. Ele lembrava-se do meu vestido de veludo azul e convidou-me para jantar. Eu aceitei e dormi com ele nessa noite. E acabei por oferecer o colar de ágatas à minha mãe. Ela sempre gostou de amarelo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Uma história de nada.

De todas as histórias trágicas, esta foi talvez a mais triste de todas. Antes, houve sofrimento. Sofreu ela. Sofreu ele. Depois sofreu ele. E ela sofreu também. Sofreu-se muito, e a tristeza foi profunda. Mas esta, esta história fez-se de oportunidades perdidas. Esta história não existiu. Não era ela. Não era ele. Nunca foram eles. Eles nunca existiram. As oportunidades multiplicaram-se a pouco e pouco e a pouco e pouco foram sendo desperdiçadas. Eles não estavam lá. Não havia um lugar. Não havia tempo. Não houve nada. Não existiu. Mas sofreu-se. Tragicamente, sofreu-se por nada.

segunda-feira, 10 de março de 2008

História de ir dormir.

Agarra-te à cadeira com as duas mãos, com força. Articulações lívidas, lábios reduzidos a um traço escuro. Só as pontas dos dedos dos pés tocam o chão que aos teus olhos se movimenta numa dança espiralada. O fumo dos cigarros faz-te arder os olhos que, lacrimejantes, procuram um espaço limpo entre o nevoeiro cerrado. Sim, é a cadeira a tua tábua de salvação. Agarra-te bem para não caíres a esse mar de beatas pisadas e sujidade negra e húmida. O murmúrio do vento nas ondas transformou-se num medonho troar de navios a embater em rochas. Aceitas a inevitabilidade do naufrágio e é com tristeza que ouves os gritos dos marinheiros ébrios que te rodeiam. Ao longe, ao longe, por entre as ondas e o nevoeiro, quase debaixo de água, ouves as gargalhadas estridentes e as palavras rudes do convés num calão arrastado por línguas entarameladas pelo rum. Piratas! Piratas! Sois uns falsos! Esse rum não é puro. A coca-cola transforma-vos em putas de dentes podres e hálito fétido. Onde estão agora as vossas espadas? Não vejo facas nos dentes, nem coragem nem inteligência em vez dela. Os saltos altos vermelhos batem no chão e ecoam como tocos de madeira. Amputaram-vos o brilho. Mas não existe talento de pau. Que pena, que pena! Tanta beleza estragada. Que cheiro a vinho azedo. Ainda ninguém esfregou o convés esta noite. Procuras no horizonte, apesar de não conseguires subir à gávea com o balanço violento das ondas, por uma aberta no céu negro de nuvens e trovoada. E de repente, lá está ela. Longos cabelos loiros, queimados pelo sol, sacudidos pelo vento (apesar de não haver brisa e o ar estar abafado) e a brilhar com os reflexos da luz (apesar de metade das lâmpadas no tecto estarem fundidas) e olhos grandes como faróis a iluminar a tua arriscada trajectória pelo meio da tempestade. Uma sereia de barba aos caracóis. Ouves o seu canto mavioso e preparas-te para o seguir. Largas uma mão da cadeira e ergues lentamente o copo até aos lábios já tingidos de roxo pelo vinho. Bebes de um trago o resto do líquido, como pirata intrépido que hoje és. Ergues-te da cadeira mais rápido do que devias, para ires até ao balcão pedir outro copo e teres um pretexto para meter conversa com a sereia lá do fundo. E é então que te lembras que as sereias cantam para os marinheiros atraindo-os para o fundo do mar. Elas gostam da companhia dos cadáveres que enfeitam os seus jardins subaquáticos. Apercebes-te do teu erro tarde demais e atiras o rosto para o lado, vomitando os sapatos vermelhos do marujo mais próximo. Putas das sereias. Só queres o teu beliche. Arrastas-te dali para fora, para onde o ar é um pouco mais puro. Já passou o enjoo mas sentes a cabeça pesada. Levantas os olhos do chão com esforço e é com enorme surpresa que olhas em teu redor. Por todo o lado, estranhas criaturas passeiam no meio do escuro. Corpos com mais membros que o normal, plumagens de muitas cores e jubas estranhas. Grasnidos, roncos, latidos, zurros e toda uma selva de gritos soltados pelos animais mais exóticos e assustadores que alguma vez sonhaste ou imaginaste. Estás agora numa floresta encantada. Coragem. Hás-de conseguir encontrar o caminho para casa pelo meio das árvores e bestas coloridas. Caminhas com cuidado sem olhar muito para lado nenhum, não vá surgir alguma fada traiçoeira.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

"Just keep swimming..." ou "A Piscina."

Ela sentia-se como se vivesse eternamente presa numa piscina. Uma piscina de sonhos e divagações, desejos e ambições, medos e preconceitos, dúvidas e incertezas. Se às vezes conseguia nadar alegremente no meio daquilo tudo, outras tinha de fazer um esforço enorme para erguer a cabeça e respirar. Era por isso que às vezes se deixava apenas boiar. E a piscina não tinha escadas por onde subir. E era tão grande que ela se perdia e não conseguia encontrar a zona segura, onde tivesse pé. Para subir teria de fazer força com os braços e içar-se a ela mesma, suportando todo o peso do seu corpo. Mas o rebordo era tão alto... Às vezes queria subir, para se poder secar de toda aquela confusão. Às vezes tinha tanto frio dentro de água que ficava com as pontas dos dedos engelhadas, os lábios ganhavam um tom arroxeado e os ossos doiam-lhe. Quando mergulhava muito fundo, ardiam-lhe os olhos por causa do cloro e tinha de se apressar para vir à tona chorar. E enquanto o tempo passava, a água da piscina ia aumentando de volume com as lágrimas. Aos poucos, foi-se tornando uma piscina de água salgada. Até que ela chegou a um ponto em que se sentiu extenuada e pensou em parar de nadar; pensou em deixar que aquela água, que já lhe gelara o coração, lhe invadisse também os pulmões. Assim poderia finalmente descansar, no fundo negro da piscina, que ela nunca conseguira alcançar e tinha tanta curiosidade em conhecer. Mas foi nesse momento que sentiu uma mão a puxá-la pelo pé. Tornou-se leve como uma pluma e flutuou no ar. Enquanto era içada, escorreu toda a àgua que tinha no corpo e nos cabelos. E então, sentiu de novo os pés no chão quente e firme do mundo real. E a realidade foi mais encantadora que algum sonho podia algum dia ter sido.

terça-feira, 9 de maio de 2006

Equinócio

Ela era uma forasteira. Chegou à cidade num dia de sol, vinda ninguém sabe de onde nem porquê. Trazia apenas uma mochila às costas, com os seus escassos pertences. Vestia umas calças de ganga e uma blusa de verão, bastante puídas, e calçava umas botas castanhas de montanhismo, cobertas de pó. Os seus cabelos longos e escuros, voavam com o vento, soltos e em desalinho. Era bonita. O seu ar de aventureira gerou desconfiança mas o mistério que trazia consigo despertou a curiosidade geral.
A única pessoa com quem foi vista a falar foi com a dona da casa do fim da rua. Era uma casa grande com um lindo jardim, rodeada de plátanos. A dona da casa era uma senhora elegante, de voz suave, com os seus sessenta ou setenta anos. Usava os cabelos brancos apanhados num bonito rolo no alto da cabeça e tinha uns olhos sábios, azuis e bondosos. Quem sabe se elas já se conheciam? Podiam até ser familiares distantes. Mas também podiam ser apenas duas desconhecidas até ao momento em que foram vistas juntas.
- É com o meu noivo que deves falar. - foi a resposta que a senhora deu à rapariga. Não se sabe qual seria a questão. Não se sabe o que ela pretendia naquela tarde de sol em que chegou à cidade com o mundo reflectido no castanho dos olhos.
A rapariga foi ao encontro do noivo da dona da casa do fim da rua. Ele era um homem de ciência, nos seus trinta e alguns anos. Usava uns óculos de lentes grossas que lhe escondiam os olhos verdes. Foi através deles que a viu. Linda e perturbante. A calma dela e o seu sorriso constrangedor provocaram-lhe um estranho efeito. Como se ficasse com febre de repente. Talvez fosse do sol forte, talvez fosse da mudança de estação. Pediu-lhe que ali aguardasse alguns momentos, enquanto ia falar com a sua noiva. Para confirmar alguma coisa, talvez. Doeu-lhe a surpresa com sabor de desilusão que leu nos olhos dela. E deixou-a só. Se se ia casar era por amor. Que dúvida restava, então?
A jovem ficou sozinha na estranha divisão. Era um laboratório e ao mesmo tempo era escritório, sala, quarto, biblioteca. As paredes estavam forradas de estantes que para além de centenas de livros continham objectos e instrumentos desconhecidos, que ela se entreteve a observar enquanto pensava na estranha personagem que acabara de sair. Ele tinha cabelos ruivos, compridos e escorridos até ao nível do queixo. E usava uma barba curta que ela tivera vontade de afagar. A bata branca que lhe chegava aos joelhos estava repleta de estranhas nódoas científicas e riscos de caneta.
Foi então que a sua atenção se desviou para a varanda. Era enorme e não tinha gradeamento. Era apenas um pedaço de chão ao ar livre. E encontrava-se lá um telescópio apontado ao céu que estava naquele momento repleto da mistura de tons quentes do poente. No momento em que ela se aproximou para ver melhor aquele espectáculo arrebatador que a natureza lhe oferecia, levantou-se um vendaval tremendo. O vento uivava, gritava, relinchava assustadoramente. Uma rajada empurrou brutalmente a rapariga para fora da varanda e ela ficou pendurada apenas pelos braços, à altura de dois andares.
Foi nesse instante que ele entrou, logo tomado pelo pânico. Caía um dilúvio. A tempestade destruíra o interior do laboratório (tinha até arrancado pela raíz os plátanos da casa do fim da rua) e as estantes caídas bloqueavam-lhe a passagem. Tentou desesperadamente empurrar os obstáculos que o separavam da rapariga e o impediam de a salvar. Ela riu do absurdo da situação e no momento em que ele conseguiu passar para correr até ela, veio nova rajada de vento que a elevou. Como se voasse, ela pedalou no vazio e foi impulsionada para os braços dele.
- Vês? Nem tudo é ciência. Isto agora foi magia.
Ele ajudou-a a despir as roupas encharcadas e afastou-lhe o cabelo dos olhos. Indicou-lhe o quarto de banho, onde podia tomar um duche quente. Mas ela não se moveu e continuou a fixá-lo. Lentamente, começou a desapertar-lhe os botões da bata suja e beijou o cientista incrédulo.
Fizeram amor no meio do caos que os rodeava, e foi como se o mundo fizesse sentido outra vez. Durante os momentos em que estiveram unidos naquela dança carnal em que a chuva que entrava pela janela aberta lhes fustigava os corpos enleados, o cientista fez a maior descoberta da sua vida. Descobriu o amor. Era diferente do carinho, da amizade, da admiração e dos outros sentimentos bonitos que nutria pela sua noiva. Ele desejava esta rapariga como nunca pensara que se podia desejar alguma coisa. Era luxúria, era paixão. Ele queria protegê-la de todos os males e cuidar dela. E sentia-se vulnerável perante o seu olhar. Era amor, enfim.
E quando ambos atingiram o auge das suas paixões, escutaram um estrondo pavoroso e inconfundível. Também vinha de cima mas não era um trovão. O cheiro da pólvora e do sangue não lhes deixou lugar para dúvidas. Ambos sentiram o mesmo projéctil penetrar-lhes as carnes, quase em simultâneo. Primeiro ele, depois ela. Tinham sido assassinados pela traição. E sem desfazer o abraço das suas pernas em volta da cintura dele, ela disse:
- Se sobrevivessemos, ficavamos com uma cicatriz para nos recordar a nossa primeira noite de amor...

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Numa noite qualquer.

- Onde é que queres que te deixe? Em casa? - perguntou ela.
- Não. Não quero que me deixes em lado nenhum. Nunca. - respondeu ele.
- Está bem. - disse ela.

Houve uma pausa.
E em seguida houve um beijo extremamente sensual em que o lábio inferior dela deslizou lentamente por entre os lábios dele. Tinham os olhos apenas semicerrados e não sorriam.

Vrruuuuuum!

E foram felizes para sempre.

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Amanhecer.

A noite extinguia-se diante dos teus olhos. Pensaste que seria o momento oportuno. Mas não sabias que caminho havias de tomar. Enquanto o negro do céu se tornava violeta e depois azul e as estrelas desapareciam aos poucos, ficaste a pensar. Havia tempo. Não muito, mas um pouco era o suficiente. Pelo menos até que surgisse a manhã. Pensaste em caminhar depressa, muito depressa, quase a correr, até casa. Antes que o brilho do sol te cegasse os olhos desabituados da luz, ao despontar. Podias fechar as persianas do teu quarto e dormir até ao fim da tarde, sem sonhar. O descanso absoluto. Mas sabias que não ias conseguir porque as insónias eram agora a excepção que se tornara regra. Constantes. Sentias até que eram praticamente a única coisa com que podias contar, que tinhas de certo na tua vida.
Em vez disso, escolheste outra rota. Levantaste-te cheio de calma, ainda que fosse uma calma auto-imposta, e sacudiste a areia das calças. Voltaste as costas ao ponto mais claro do céu, onde o sol ia nascer, trepando pelas ondas, e dirigiste-te devagarinho para uma esplanada. O café ainda estava fechado, mas tu não te importavas de esperar. Sentaste-te numa cadeira verde de plástico, sem te preocupares com a humidade da noite que se acumulara no assento, e puxaste de uma folha de papel do bolso interior do teu casaco de camurça. Procuraste a caneta e quando a encontraste começaste a escrever uma carta. A folha colava-se à mesa meio molhada, mas estavas tão concentrado nas palavras que nem notaste. Era uma carta do teu eu para ti. Como se te dividisses em dois e isso te tornasse mais completo. Também não te apercebeste do aumento gradual da intensidade da luz que incidia nas tuas palavras escritas avidamente e só ao pousares a caneta é que viste que já era de dia.
Tal como a carta, também tu estavas pronto. Não para começar de novo, mas para continuar de forma diferente. O que ficava para trás continuava a ser importante mas o que tinhas pela frente, ou o que podias fazer disso, prometia ser muito melhor.
Levantaste-te da cadeira, ainda com o café fechado, e andaste muito depressa, quase a correr, até casa. Entraste no teu quarto, descalçaste-te e despiste o casaco. Mas em vez de te deitares para tentar dormir, foste até à cozinha fazer o pequeno-almoço. Estavas mais acordado do que nunca. O que escreveste não importa. Afinal, era só para ti. Mas sei que no final do dia, quando finalmente te deitaste, dormiste o melhor sono da tua vida, desde criança. Sem qualquer lembrança de insónias.

segunda-feira, 20 de março de 2006

A História do Cão Azul


Era um cão com cara de gato. Tinha bigodes compridos e tudo. O pêlo cinzento, por vezes, parecia azul, talvez por causa da luz, o que fazia com que parecesse um cão de outro planeta. Isso e os olhos, que pareciam olhos de pessoa e faziam as pessoas que para lá olhavam arrepiar-se. Era um cão que ladrava como quem ri, uivava como quem chora e usava a cauda em forma de ponto de interrogação. Era um cão pançudo, que gostava de se espreguiçar ao sol, como um gato. Era um cão semeado; aparecia em todo o lado.
Para além das crianças, que achavam que ele era um extraterrestre, havia mais quem tivesse as suas teorias sobre o cão azul. Uns diziam que era um fantasma e assombrava as ruas. Outros achavam que era um demónio e dava azar a quem o visse. Outros ainda, diziam que dava sorte, porque era uma espécie de criatura mágica. Havia também quem dissesse que o cão era um anjo da guarda, um enviado dos céus para combater os maus e proteger os bons. Por último, pelo menos que se saiba, havia a teoria de que era uma pessoa reincarnada, por causa dos olhos. Nada de novo, portanto. Claro que no meio disto tudo, quem estava mais perto da verdade eram as crianças. Como sempre, aliás. Afinal, era um cão que se portava como quem não sabia nada e estava a descobrir tudo pela primeira vez. E pela forma como investigava minuciosamente todos os recantos, enfiando o seu nariz húmido e rosado, como os dos gatos, em todos os lugares onde conseguia chegar; bem que podia ter sido enviado de uma estrela distante para estudar o planeta Terra.
Era um cão que gostava de brincar. E que comia flores. Era um cão especial porque não tinha dono. Era livre e era selvagem como um lobo, mas era meigo como um gato de estimação. Era um cão que gostava de lamber as mãos às crianças e tinha uma língua áspera como as dos gatos, que fazia cócegas.
Andava uma noite a brincar com um pirilampo. Uma luzinha pequenina e amarela que piscava e brilhava no meio da escuridão. O cão ouvia o seu riso pequenino e achava que era uma fada. Porque até os cães sabem fantasiar. Pelo menos aquele sabia. Tentava tocar na luzinha com a sua pata azul, levantando-a à altura do seu focinho pontiagudo, como fazem os gatos quando brincam. Mas a luzinha do pirilampo era tão pequenina, tão pequenina, que o carro vermelho não a viu. E na manhã seguinte, a rua ficou mais triste, porque o pêlo fofo do cão era apenas cinzento. Tinha-se acabado o azul. E a língua áspera pendia-lhe inerte por entre os dentes afiados que costumavam morder as flores. Sem vida. Sem azul.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Quando a rosa descobre que é uma máquina de guerra.

Existem três tipos de rosas. Mas não é pela cor que se distinguem.
Enquanto são ainda pequenos botões não se preocupam com mais nada a não ser aprontarem-se para desabrochar. Para saírem perfeitas. Não que sejam vaidosas, como muitos julgam; apenas gostam de agradar. Quando abrem pela primeira vez as pétalas ao sol, o deslumbramento é tal que ficam petrificadas, em contemplação, até que descubram o vento.
Muitas rosas permanecem neste estado puro até ao fim. Dedicam os seus dias a sentir o calor do sol nas pétalas, a escutar os murmúrios do vento e a sentir as suas carícias por entre as folhas que estendem de prazer. Embriagadas na fotossíntese. Completamente alheadas de si mesmas. Alegres e despreocupadas, sorrindo ao mundo. São as rosas inocentes.
Depois há as rosas que passam os dias com medo dos insectos e os ameaçam constantemente com os seus pequenos espinhos afiados, convencidas de que estes bastarão para as defender de tudo e de todos (como a rosa do Princípezinho...). Conversam com as irmãs, queixando-se do perigo das lagartas e do assédio das abelhas. São as rosas ingénuas e palermas.
Mas há ainda um terceiro tipo de rosa. A rosa que um dia, não se sabe muito bem como nem porquê, descobre toda a dimensão da sua beleza. E apercebe-se de que esta é a arma mais poderosa de todas. Infinitamente mais devastadora que uns simples espinhos. Dedica-se então a coleccionar corações. Colecção sangrenta a sua, direis. Mas ela não o faz por mal. Em si não há lugar para a maldade. Fá-lo apenas porque lhe dá prazer. E porque sabe que pode. Simplesmente cumpre o seu destino. Se um transeunte incauto passa por ela, lança-lhe o seu perfume arrebatador, que o entontece. Se ele pára para a admirar, inclina-se suavemente na sua direcção, usando a brisa como pretexto para o seu desiquilíbrio momentâneo. Se ele lhe toca, pica-o com doçura, inebriada pelo sangue quente que a inunda e tanto a excita. Se vê que ele repara nos pequenos cortes que lhe marcam o tronco, ri-se para dentro porque sabe que ele pensará que se tratam das sequelas deixadas por alguma faca ou tesoura, ao colher uma das sua irmãs. E quando finalmente ele se afasta - por saber que a levará no pensamento, que será a causa da sua perturbação, que aquele coração lhe pertence para sempre, para uma eternidade maior que algumas vidas - utiliza rejubilante o próprio espinho para rasgar a sua carne de flor, num ritual de automutilação que lhe permite actualizar o inventário da sua colecção. E espera que passe mais alguém. Estas são as rosas perigosas. E as que mais vale a pena conhecer.
Se amanhã passardes por um jardim, acautelai-vos. Agora conheceis os riscos. Se quereis conservar o coração livre, afastai-vos das roseiras. Se não vos importais e quereis sentir na pele a doce mordedura de uma rosa, ide e aspirai o seu perfume. Se, como o meu, o vosso coração já pertence a alguma rosa, então não preciso dizer mais nada. Sabeis do que falo.